domingo, 30 de junho de 2013

Diagnóstico errado e subestimado de TDAH no Brasil


Foto: reprodução internet
Sem falsa modéstia, sempre fui uma criança muito esperta.
Tudo que resolvia fazer, aprendia rápido e fazia bem feito. Comecei a ler e a escrever sozinha aos quatro anos, a tocar piano de ouvido com a mesma idade ou até menos, era ótima aluna, comunicativa, criativa, adorava participar de todas as atividades propostas na escola: concursos de redação e oratória, gincanas culturais, olimpíadas esportivas, grêmio estudantil, aulas de música, artes, balé... Não deixava passar nada.


Até que por volta dos 11 anos, quando fazia a então quinta série (atual sexto ano), passei a sentir dificuldade para assimilar as informações. Eu não conseguia me concentrar para fazer os deveres. Quando lia qualquer livro, tinha que voltar no texto várias vezes porque esquecia o que tinha acabado de ler. 

Lembro que tive várias professoras particulares. E que interrompi as aulas de piano que fazia desde pequena porque tinha preguiça de estudar. Que passei a agir de forma displicente, excessivamente distraída e estabanada. E isso perdura até os dias de hoje, para meu desgaste, tristeza e culpa. Muita culpa.

Minha mãe conta que minhas professoras sempre a procuravam para tecer elogios pelo meu desempenho e que, de repente, os elogios foram substituídos por advertências e conselhos para que ela procurasse um psicólogo para me ajudar. 

Chegamos a procurar uma, que sugeriu que eu fizesse um exame neurológico.
O tal exame apontou um distúrbio no lobo não sei o quê, que, segundo o médico que nos atendeu, era relacionado justamente ao campo da atenção. 


Não cheguei a fazer nenhum tratamento na época, mas tenho certeza de que o TDAH não foi cogitado.
 

Sei que muitas crianças estão sendo diagnosticadas precipitadamente e tomando remédios muitas vezes sem necessidade. Mas muitas outras, assim como eu, vão passar muito tempo sofrendo por falta de um diagnóstico preciso e de um tratamento eficiente. 

Compartilho com vocês esta matéria publicada no jornal O Globo que achei bastante apropriada. 

Saúde a todos, coragem e paz! :)


Especialista diz que problema maior do país ainda é falta de tratamento
Por Flávia Milhorance

Se nos Estados Unidos, a principal preocupação de especialistas é com relação ao aumento de diagnósticos do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o consequente consumo alarmante de medicamentos para contornar os sintomas, no Brasil, médicos ainda esbarram na dificuldade de diagnosticar a doença entre crianças e jovens, especialmente em localidades fora dos grandes centros urbanos.

No Brasil, o que acontece é o contrário. Há uma quantidade grande de crianças não diagnosticadas ou diagnosticadas incorretamente - afirma Fábio Barbirato, coordenador do setor de psiquiatria infantil da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. 

O especialistas cita dados da USP em que 5,4% de indivíduos de 6 e 16 anos têm TDAH, mas só 2,5% recebem tratamento, incluindo o uso de remédios. 

- A venda de medicamento no Brasil não teve este aumento como as pessoas falam. Se for pensar, a venda está menor do que o necessário - avaliou.

Em sua prática médica, Barbirato estima que, das crianças diagnosticadas equivocadamente com TDAH, 90% têm, na verdade, outro transtorno, como autismo, ansiedade, dislexia ou retardo mental. Outros 10% não têm nenhum transtorno, e a desatenção, sintoma clássico do distúrbio, teria relação com outros fatores, como falta de limite ou de atenção dos pais.

- Com diagnóstico errado, os sintomas podem piorar, e as consequências disto levam até a evasão escolar - alerta o especialista. - Por isso, recomendamos que os pais procurem profissionais titulados pela Associação Brasileira de Psiquiatria. 

SEM ALARME, MAS ATENÇÃO A SINTOMAS

Embora haja casos de "exageros" de diagnósticos de TDAH, é importante que pais estejam alertas aos sintomas. Desatenção, inquietude, desorganização extremadas estão entre os principais.

- É quando ele deixa tudo para depois, precisa ser monitorado sempre, havendo um desgaste da relação familiar, da mãe sempre cobrando da criança que não tem nenhuma autonomia - exemplifica Barbirato.

Mesmo sem dados estatísticos, o especialista aponta que é na segunda fase do ensino fundamental, ou seja, a partir do 6º ano, que os sintomas são mais percebidos, porque interferem mais no desempenho escolar. 

- Com a exigência maior, aquela desatenção que era suprida pela família e pela professora fica ressaltada, e o aluno acaba se atrasando.

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