domingo, 31 de outubro de 2021

Assistir a esporte ajuda a reduzir risco de depressão, diz estudo

Por Fatima Kamata, para BBC Brasil

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Dieta e genética podem explicar, mas há outras razões associadas que poderiam estar contribuindo para fazer o povo japonês ter uma das mais altas expectativas de vida do mundo: 87,74 anos para as mulheres e 81,64 para os homens.

Estudo inédito mostra que assistir a esportes, ao vivo ou pela televisão, é um desses hábitos que ajudam a reduzir os sintomas de depressão entre idosos. O trabalho faz parte do Estudo de Avaliação Gerontológica do Japão, que realiza pesquisas de acompanhamento sobre as condições de saúde de idosos.

"Assistir a esporte é uma oportunidade de se sentir animado de maneira casual", diz Taishi Tsuji, professor-assistente de Ciência do Esporte na Universidade de Tsukuba, em Ibaraki. Ele trabalhou no relatório final, publicado no jornal científico britânico Scientific Reports.

Os pesquisadores destacam que no cenário atual de pandemia e com o país enfrentando sua quinta onda de casos de Covid-19, isso pode ser muito útil na prevenção de quadros de ansiedade no futuro.

Assistir a esportes é uma atividade positiva que promove emoção e diversão, ao mesmo tempo que tem efeito na socialização, como fomentar a interação com a comunidade e fortalecer as redes sociais.

A depressão continua sendo um grande problema na saúde mental dos idosos devido à sua forte associação com mais comprometimento funcional e cognitivo do que em adultos mais jovens, além de representar altos custos para a família e a previdência.

"Se usarmos os resultados dos estudos, acredito que será possível ajudar idosos na prevenção da depressão", diz Tsuji.

Os pesquisadores analisaram 21.317 questionários que haviam sido enviados em 2019 e 2020 a pessoas com mais de 65 anos, residentes em 60 cidades, vilas e aldeias em todo o país. Os participantes foram questionados se assistiam a eventos esportivos de qualquer modalidade e com que frequência.

Embora o estudo tenha sido feito antes da Tóquio 2021, o pesquisador Tsuji acredita que o mesmo efeito tenha sido alcançado pelas pessoas que acompanharam os Jogos em casa. Apesar da alta rejeição inicial ao evento, a cerimônia de abertura garantiu uma das maiores audiências da tevê. (...)

Fora da olimpíada, os esportes mais assistidos pelos idosos japoneses são beisebol profissional (61,6%), sumô (60,2%), jogos da seleção de futebol (60,1%), maratona ou corrida de revezamento (57,4%), patinação artística (54,8%) e beisebol escolar (52,6%).

"Dada a popularidade considerável desses eventos no Japão, ver jogadores e times se enfrentando pode provocar entusiasmo e felicidade e pode ter um efeito positivo na saúde mental", destaca o estudo.

Os níveis de depressão foram medidos por meio de um conjunto de 15 questões direcionadas aos idosos. As perguntas avaliavam se eles estavam contentes com suas vidas e se sentiam angustiados.

Em comparação com os entrevistados que não assistiam a nenhum esporte, aqueles que viam jogos ao vivo várias vezes ao longo de um ano tinham 0,70 vez menos probabilidade de desenvolver sintomas de depressão.

Entre os que assistiam uma a três vezes por mês eram 0,66 vez menos prováveis. Quanto maior a frequência com que assistem a algum esporte, melhor foi o resultado.

A equipe também perguntou aos participantes sobre as relações com a comunidade local. As pessoas que assistem esportes tendem a ter um apego à vizinhança e possuem mais amigos do que aqueles que não veem eventos esportivos.

Os autores do estudo concluíram que os sintomas depressivos podem ser aliviados por meio da excitação e felicidade induzida ao acompanhar o desempenho de atletas profissionais em um ambiente de estádio, que difere da vida cotidiana.

Os mesmos benefícios foram observados mesmo com atividades locais. De acordo com o estudo, é bem possível que torcer por jogadores que são amigos ou familiares provoque a mesma felicidade, apesar da competitividade ser relativamente baixa.

Há, porém, uma ressalva. Os autores também avaliaram a felicidade entre os homens antes e depois de uma partida de rúgbi, e descobriu que vencer não aumentou a sensação de felicidade, mas perder a diminuiu. O torcedor fanático pode deixar o prazer do esporte e se concentrar apenas no resultado, o que não é positivo.

Os pesquisadores lembram que assistir a esportes é uma atividade comum e popular mesmo em grupos de idades mais jovens. No entanto, seria preciso coletar mais dados para determinar a frequência ideal que produziria mais benefícios às pessoas dessas outras faixas etárias.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

‘Psicofobia’: os estigmas sobre saúde mental e medicamentos

De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde, em todo o mundo há mais de 1 bilhão de pessoas afetadas por transtornos psicológicos

Fonte: CNN Brasil 

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De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde, em todo o mundo há mais de 1 bilhão de pessoas afetadas por transtornos psicológicos.

O médico psiquiatra e psicoterapeuta, Guilherme Spadini, professor convidado de Psicologia Médica da medicina da USP, explica que o uso da palavra “transtorno” é indicado para doenças que não têm um mecanismo fisiopatológico claro, como é o caso dos transtornos mentais. 

Nem sempre as alterações físicas são as mesmas e, quando se trata de uma doença mental, vemos mudanças no comportamento e pensamento. 

Todas as pessoas podem, em algum momento da vida, desenvolver um transtorno psicológico. “As causas de transtornos mentais não são completamente conhecidas, existem predisposições genéticas, mas tem também importância o psicossocial, interações com o meio, com a cultura, com o que vive no dia a dia”.

Exposição a diversas violências e traumas, assim como má qualidade de vida, sem momentos de lazer e com estresse contínuo podem ser propulsores para um quadro de distúrbio psíquico. “Pode variar também de transtorno mental para transtorno mental. Esquizofrenia pode ter um fator biológico maior que a depressão, por exemplo” completa Spadini.

Psicofobia

O preconceito em relação a pessoas que sofrem de transtornos mentais é conhecido como Psicofobia. O termo não é usado na própria psiquiatria, mas tem um valor social para falar e ser inclusivo sobre o assunto. Spadini destaca que existe, em torno dos pacientes psiquiátricos, “aura de imprevisibilidade, de que a pessoa é fraca”.

Esse conjunto de ideias negativas pode limitar os pacientes, como, por exemplo, fazer com que alguém com histórico de transtorno mental seja preterido em um emprego.

Segundo o médico, o principal motivo para o estigma é a falta de conhecimento. Não saber traz esse estranhamento e as pessoas tendem a evitar o que não conhecem. O principal antídoto para o combate da psicofobia é popularizar informações sobre transtornos mentais.

Por vezes, o estigma vem de dentro de casa. Pais costumam ter dificuldade de aceitar que um filho seja paciente psicológico. Spadini trabalha com jovens e  estudantes universitários e conta que é recorrente que eles queiram esconder o tratamento dos pais.

“É uma má notícia para os pais, como se tivesse algo de errado. É difícil lidar com o fato de que seu filho possa estar em sofrimento. A gente vive em um mundo em que precisamos estar felizes o tempo todo e demonstrar essa felicidade. Não é fácil aceitar o quanto da vida é sofrimento, e para os pais muitas vezes isso se traduz como culpa.

O médico lembra que, no passado, ter um transtorno mental era algo “escondido” e que se evitava falar a respeito, principalmente em ambientes de trabalho. As gerações mais recentes de pais e jovens tendem a aceitar melhor os transtornos mentais. Hoje existe uma popularização de ir e comentar sobre a famosa ‘terapia’.

O acompanhamento psicológico com psicoterapia pode ser feito sem diagnóstico de transtorno, apenas para melhorar a qualidade de vida. Conversar sobre os pensamentos e ter com quem falar é hoje muito mais aceito.

Medicamentos

O estigma da psicoterapia pode até ter ficado para trás, mas sobre o tratamento psiquiátrico com medicamentos ainda tem muito o que se desconstruir.  “Todos os médicos eram consultados e o último médico a ser encaminhado era o psiquiatra”.

“É como se fosse um exagero o uso de medicamento, algo psicologicamente ruim, que fosse tirar a realidade do paciente, tirar a limpeza. Usar medicamentos parece fraqueza”, comenta Spadini. 

Por esse medo e amedrontadas pelo estigma, pessoas com transtornos mentais deixam de procurar a ajuda que precisam. Sem o tratamento adequado, pessoas com transtorno passam décadas sofrendo de sintomas intermediários e perdem o funcionamento total da vida. Esses sintomas, a longo prazo, interferem na carreira, casamento, saúde física e em outros aspectos pessoais. 

As pessoas ao redor do paciente podem até ter uma preocupação genuína sobre o uso contínuo de medicamentos, como receio de dependência. 

Segundo o psiquiatra, um tratamento com medicamentos não tem a função de cura ou de corrigir algo errado. Ele tem um efeito benéfico, diminui o sofrimento e aumenta a chance de recuperação. 

Efeitos colaterais graves podem ser prevenidos com o acompanhamento de um bom profissional que vai observar os efeitos e reações no paciente.

“Deve ser feito com cuidado e atenção e parar assim que possível. O problema são as pessoas que não querem tomar de jeito nenhum ou acham que precisam tomar para ficar tudo maravilhoso”, indica Spadini.

O casamento entre psicoterapia e medicação é o mais indicado para distúrbios psíquicos. Também é essencial que haja mudanças no estilo de vida, como e prática de esportes, boa alimentação e sono reparador e ter uma satisfação nos relacionamentos.

“Não é só uma questão de tomar remédio. Ele diminui mais rápido a gravidade dos sintomas e impede consequências nocivas para o paciente. Mas psicoterapia e melhora na qualidade de vida ajudam também”

Campanha 

A Associação Brasileira de Psiquiatra, desde 2011, faz campanhas para conscientizar sobre o estigma em torno da saúde mental, chamado pela ABP de Psicofobia. De acordo com o site oficial, 12 de abril é o Dia Nacional de Enfrentamento à Psicofobia.

O termo ‘psicofobia’ foi criado após o ator Chico Anysio alertar para a falta de um nome para descrever o preconceito.


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Com síndrome do pânico, lutador Cara de Sapato conquista prêmio de 1 milhão de dólares

 

(reprodução internet)

Na noite desta quarta-feira, o lutador de MMA Antonio "Cara de Sapato" Jr. conquistou o cinturão do evento PFL e o prêmio de 1 milhão de dólares! Cara de Sapato convive com a síndrome do pânico desde 2011, e vem nos mostrar que, sem preconceito e com tratamento adequado, é totalmente possível superar nossas limitações e conquistar os nossos maiores sonhos!

Assista à entrevista que o Sem Transtorno fez com Cara de Sapato e saiba mais sobre o atleta paraibano.


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Preocupações com a imagem e bullying afetam saúde mental de jovens nas redes sociais

Episódios de ansiedade e pânico têm como uma das causas o excesso de conectividade

Fonte: O Globo

Freepik

RIO — O gesto é automático, antes mesmo de levantar da cama: ao acordar, a mão logo estica em busca do celular. A tela desbloqueada inunda os olhos — e o cérebro — de mensagens, notícias, imagens e informações. Em um mundo cada vez mais conectado, em especial em tempos de pandemia, o smartphone virou quase uma extensão do corpo. 

Estudos recentes mostram que, em média, as pessoas checam seu celular 80 vezes por dia. No entanto, o uso em excesso pode causar danos à saúde e ao bem-estar.

Como o fenômeno é novo, os impactos das redes sociais na saúde mental ainda não são totalmente compreendidos, mas as evidências mais contundentes disponíveis apontam para a associação dessas tecnologias ao aumento do risco de problemas mentais, em especial ansiedade e depressão. Calma, isso não significa que as redes sociais sejam a causa primária desses transtornos, como alguns querem nos fazer acreditar. Mas seu papel de gatilho soa incontestável.

As pessoas mais suscetíveis à depressão têm pouca habilidade para regular as emoções, têm baixa resiliência e tendem a ter problemas de autoestima. Nesse caso, as redes sociais são um prato cheio para embaralhar a saúde mental. O uso antes de dormir prejudica o sono; as notificações constantes afetam a concentração; os likes aceleram a necessidade de aprovação e a busca pela selfie perfeita contribui com a busca incessante pela perfeição. Uma pesquisa recente feita pela pesquisadora comportamental Vanessa Van Edwards mostrou que 68% dos entrevistados relataram episódios de ansiedade e pânico diante de imagens que eles não conseguiam reproduzir em suas vidas.

Além disso, o ambiente virtual é habitado pelos haters, que praticam cyberbullying. Famosos como as cantoras Luísa Sonza e Ana Vilela já falaram em público sobre como o ódio nas redes sociais pode ser gatilho para depressão. A última edição da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar mostrou que um em cada dez estudantes já foi ofendido nas redes sociais.

O uso excessivo da internet é especialmente preocupante na adolescência, quando o cérebro é mais vulnerável ao surgimento de doenças mentais. Nascidos em uma época hiperconectada, os jovens, com mente ainda em formação, têm mais risco de desenvolver déficit de atenção, fobia social, depressão e compulsão com esses hábitos.

Antes da pandemia, os brasileiros estavam entre os povos que passam mais tempo conectados: em média, nove horas diárias. A média mundial é de seis horas. A situação certamente piorou na pandemia, quando o trabalho, a escola e as relações sociais se tornaram primordialmente remotas. Um estudo publicado em 2017 pela Universidade de Seul, na Coreia do Sul, mostrou que a utilização excessiva de telas como a de celular gera alterações químicas no cérebro que levam a reações idênticas às da síndrome de abstinência.

Já existem centros dedicados a tratar do vício na internet, que inclui, entre outros, jogos online e redes sociais. No Brasil, os principais são o Instituto Delete, no Rio de Janeiro, e o Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Em países como Inglaterra e Japão, a dependência tecnológica já é vista como um problema de saúde pública.

Levantamento realizado no Reino Unido avaliou a influência de quatro redes — YouTube, Instagram, Twitter e Snapchat — em jovens de 14 a 24 anos. A plataforma mais nociva seria o Instagram. A proliferação de fotos cuidadosamente produzidas para parecem espontâneas e tratadas impacta a autoimagem e multiplica o FOMO (“fear of missing out”, ou medo de ficar de fora). Essa ansiedade por estar sempre conectado serve como alimento para os processos depressivos.

Na tentativa de reduzir a ansiedade causada pelos likes, o Instagram declarou o fim das curtidas. Pode parecer exagero, mas não é. Receber curtidas nas plataformas ativa a dopamina, neurotransmissor associado a situações prazerosas. Isso faz com que procuremos mais do mesmo, para continuar a sentir essa sensação boa. Na mesma medida, a sensação contrária é frustrante.

Para a psicóloga Andrea Jotta, pesquisadora da PUC-SP, o que torna as redes sociais mais prejudiciais são os algoritmos.

— O que é prejudicial para a saúde mental é ficar na bolha. Quando você está mais deprimido, busca conteúdos que favorecem esse estado. As redes vão alimentar isso ainda mais, pois continuam trazendo conteúdos tristes — ressalta.

Para reduzir as consequências de uma timeline prejudicial a quem sofre com transtornos de ansiedade e depressão, o Instagram passou a mostrar mensagem com sugestões de cuidados quando se faz buscas por hashtags relacionadas a essas condições.

Um estudo da Universidade Duke, dos Estados Unidos, confirmou esse impacto negativo. Os participantes que usavam tecnologias digitais por mais de duas horas e meia por dia tendiam a exacerbar comportamentos associados à depressão. Quando a exposição era menor, o uso dos aparelhos operava no sentido contrário: ajudava a diminuir os sinais de angústia.

Para Marcelo Demarzo, professor do departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e coordenador do Centro Mente Aberta da faculdade, as redes sociais também têm aspectos que são benéficos. Tudo depende da como cada um usa.

— Tem sempre um lado positivo e um lado negativo. O lado bom das redes sociais é a conexão humana, com amigos, família e conhecidos — diz ele, que acrescenta outra característica favorável dessas plataformas: seu uso como fontes de informação e aprendizado.

Mas afinal, como saber se essa relação é saudável ou passou dos limites? Uma das diferenças está no nível de inquietação quando o dispositivo não está por perto. Outra dica é notar se o uso exagerado do smartphone está interferindo na produtividade no trabalho ou no tempo dedicado à família, aos amigos ou a outras atividades. A premissa para tudo na vida vale para as redes sociais também: use com moderação.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Ex-jogador de futebol e comentarista do SBT, Cicinho falou sobre o período em que teve depressão

A revelação aconteceu durante um bate papo na 2ª Semana da Saúde Mental VivaBem, no dia 14 de outubro

Fonte: VivaBem - UOL


"Eu tentava esconder, maquiar a minha depressão, de que maneira? Com bebida, eu procurava ficar alcoolizado o maior número de horas possível, fumava, fazia compras gastando rios de dinheiro e sempre colocava o máximo de pessoas dentro da minha casa para ficar mais tempo sem pensar no meu quadro", recorda-se.

"E isso cada dia mais me levava para o fundo do poço. A vida não tinha sentido para mim", disse Cicinho durante o debate, que foi mediado pelo médico psiquiatra Jairo Bouer e ainda teve a participação da psicanalista e doutora em psicologia clínica Manuela Xavier.

Na época em que enfrentou a doença, ele estava no auge de sua carreira, jogando em um dos maiores times do mundo e pela seleção brasileira. Por isso, ele pensava que não poderia ficar doente. "Como que uma pessoa famosa assim vai ter depressão?", questionava-se. 

Cicinho lembrou ainda que descobriu a doença "por acaso", durante uma entrevista com uma psicóloga no clube do São Paulo, onde jogava. "Mas antes disso, eu me fechava e vivia o meu mundo porque tinha medo do julgamento das pessoas", conta. 

Ele então lembrou que a doença não acontece apenas com pessoas de determinada classe social ou contexto. "[a doença] não escolhe posição, não escolhe cor, não escolhe pessoas, ela pega aquela que está vulnerável", afirmou. "Eu sempre tracei planos para a minha vida profissional e quando eu atingi tudo aquilo que eu almejava, eu não via mais o que conquistar. Isso fez com que eu me entregasse ao alcoolismo, ao tabaco", contou. 

Cicinho revelou ainda que chegou a ouvir que "aquilo" ia passar, que bastava "tomar uma e pronto". Por outro lado, o comentarista ressaltou que é extremamente importante buscar ajuda especializada, pois a depressão é uma doença que se não tratada pode, inclusive, levar ao suicídio. 

Hoje estima-se que uma em cada cinco pessoas vai enfrentar uma fase de depressão durante a vida. "Eu sou fraco, limitado e forte também como qualquer outra pessoa. E eu preciso entender isso e reconhecer a minha limitação", diz.

Dias melhores e dias piores 

O comentarista ainda explicou que, às vezes, a pessoa depressiva até acorda e tenta tirar forças de onde não tem para levantar. "Eu convivi num quadro de depressão de oito a 10 anos, mas somente após esses 10 anos descobri", relata. 

De acordo com ele, um dos maiores erros é a pessoa querer mostrar para as outras que está tudo bem, sendo que, na verdade, há um completo vazio dentro dela. "É preciso reconhecer que há um vazio dentro de você que precisa ser preenchido. Foi dessa maneira que eu procurei solucionar o problema que eu vivia", disse Cicinho, lembrando que depois que parou de jogar futebol, ainda ficou dois anos sem trabalhar. 

Foi só ao levar um "puxão de orelha" da filha de sete anos que ele decidiu fazer alguma coisa da vida novamente. Hoje ele diz que o trabalho de comentarista o ajuda a preencher o seu tempo e a ter um propósito.  

sábado, 16 de outubro de 2021

Universidade Estadual do Ceará (Uece) oferece atendimento psicológico emergencial gratuito

Serviço ocorre das 18 às 20 horas, de segunda a quinta-feira, e é destinado a pessoas a partir de 13 anos residentes em Fortaleza e na Região Metropolitana (RMF)

Fonte: O Povo

(foto: Fernanda Barros)
A Universidade Estadual do Ceará (Uece), por meio do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), em parceria com a Liga Acadêmica de Psiquiatria e Saúde Mental (Lapsam), iniciou nesta quinta-feira, 14, a oferta de atendimentos psicológicos emergenciais gratuitos. O serviço é destinado a pessoas a partir de 13 anos de idade, residentes em Fortaleza e na Região Metropolitana (RMF).

Para quem deseja ter acesso aos atendimentos emergenciais, é necessário realizar o agendamento por meio do número: (85) 99753.1296, das 8 às 17 horas, às segundas, terças, quartas e quintas-feiras. O horário de atendimento aos pacientes ocorre das 18 às 20 horas pela internet. A Uece destaca que o número de atendimentos por dia é limitado, a depender da quantidade de plantonistas disponíveis.

Conforme a coordenadora do Serviço de Psicologia Aplicada da Uece, Layza Castelo Branco, o atendimento emergencial é realizado por alunos do curso de Psicologia do último semestre, bem como por alunos do curso de Medicina que fazem parte da Liga Acadêmica de Psiquiatria e Saúde Mental (Lapsam).

A Uece explica que o atendimento emergencial se caracteriza como aquele que é procurado de forma eventual, em momentos de angústia, por exemplo. A situação do paciente para atendimento de emergência é diferente do paciente de Psicoterapia, que precisa ter um acompanhamento periódico.

Serviço
Atendimento psicológico emergencial
Quando: Degundas, terças, quartas e quintas-feiras
Horário: Das 18 às 20 horas
Agendamento: Segundas, terças, quartas e quintas-feiras
Horário: Das 8 às 17 horas
Telefone: (85) 99753.1296


sábado, 9 de outubro de 2021

Pandemia de Covid-19 provoca aumento global em distúrbios de ansiedade e depressão

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Segundo a pesquisa, foram 53 milhões de novos casos de depressão e 76 milhões de ansiedade em 2020 em todo o mundo

Lucas RochaLeonardo Lopes da CNN


A pandemia de Covid-19 provocou o aumento global em distúrbios como a depressão e a ansiedade. É o que revela um estudo publicado no periódico científico The Lancet nesta sexta-feira (8). Segundo a pesquisa, foram 53 milhões de novos casos de depressão e 76 milhões de ansiedade em 2020.

Os números representam altas de 28% e de 26%, respectivamente, no período analisado. Entre os grupos mais afetados estão as mulheres e os jovens. Países mais atingidos pela pandemia também tiveram os maiores aumentos nos registros desses distúrbios.

Autor principal do estudo, o pesquisador Damian Santomauro, da Universidade de Queensland, nos Estados Unidos, ressaltou que, mesmo antes da pandemia, os sistemas de atenção à saúde mental na maioria dos países apresentavam falhas históricas como a falta de recursos e de organização para a oferta de serviços.

Segundo o especialista, as descobertas do estudo destacam a necessidade do fortalecimento dos sistemas de saúde mental para absorver a demanda crescente dos transtornos de depressão e ansiedade em todo o mundo.

“Promover o bem-estar mental, direcionar os fatores que contribuem para a saúde mental precária que foram agravados pela pandemia e melhorar o tratamento para aqueles que desenvolvem um transtorno mental devem ser fundamentais para os esforços para melhorar os serviços de apoio”, afirmou o pesquisador em um comunicado.

Para a psicóloga Karen Scavacini, da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS), a ampliação no acesso pela população de serviços gratuitos especializados em saúde mental é essencial para o acompanhamento da tendência de alta dos distúrbios.

“Precisamos ter um olhar de políticas públicas para encontrar soluções que alcancem o país como um todo. Desde o fortalecimento dos CAPS [Centros de Atenção Psicossocial], com o auxílio aos profissionais e ampliação das equipes que atuam nesses serviços. Vamos ter uma demanda maior que precisa ter o atendimento”, afirmou.

Sobre o estudo

O estudo publicado na Lancet avalia os impactos globais da pandemia no transtorno depressivo maior e transtornos de ansiedade, quantificando a prevalência e a carga dos transtornos por idade, sexo e localização em 204 países e territórios em 2020.

Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura para identificar dados de pesquisa populacional publicados entre 1º de janeiro de 2020 e 29 de janeiro de 2021. Usando uma ferramenta de meta-análise, os dados de estudos foram usados ​​para estimar as mudanças na prevalência dos distúrbios de acordo com os diferentes indicadores populacionais.

A análise indicou que o aumento da taxa de infecção por Covid-19 e a redução do movimento de pessoas foram associados ao aumento da prevalência dos transtornos, sugerindo que os países mais afetados pela pandemia em 2020 tiveram os maiores aumentos na prevalência dos transtornos.

Na ausência da pandemia, as estimativas do modelo sugerem que teria havido 193 milhões de casos de depressão (2.471 casos por 100 mil habitantes) globalmente em 2020. No entanto, a análise mostrou 246 milhões de casos (3.153 por 100 mil habitantes), um aumento de 28% (mais 53 milhões de casos). Mais de 35 milhões dos casos adicionais foram em mulheres, em comparação com cerca de 18 milhões em homens.

Em relação à ansiedade, as estimativas sugerem que teria havido 298 milhões de casos de transtornos associados à condição (3.825 por 100 mil habitantes) em todo o mundo em 2020, se a pandemia não tivesse acontecido. A análise indica que houve uma estimativa de 374 milhões de casos (4.802 por 100 mil habitantes) no ano passado, um aumento de 26% (mais 76 milhões de casos). Quase 52 milhões dos casos adicionais foram em mulheres, em comparação com cerca de 24 milhões em homens.

Saiba onde procurar ajuda especializada

A especialista da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio afirma que além do investimento nos serviços de saúde, é preciso garantir que a população saiba como ter acesso ao atendimento.

Para ela, ainda existe uma perspectiva estigmatizada dos distúrbios da mente como fraqueza ou loucura. Além disso, o acesso ao tratamento também pode ser prejudicado diante da falta de conhecimento da disponibilidade de serviços gratuitos ou com preços acessíveis.

Para driblar essa dificuldade, ela criou o site Mapa da Saúde Mental, que permite a consulta de locais que oferecem esse tipo de atendimento.

“Precisamos diminuir os preconceitos, mostrando que a saúde mental não é frescura e que existe tratamento disponível. Além de reduzir o estigma da figura do psiquiatra e do psicólogo, que ainda estão muito ligadas à loucura ou a algo que é impossível de se pagar, e ajudar com que as pessoas conheçam os serviços existentes”, disse.

O site Mapa da Saúde Mental, também conta com uma lista de serviços voltados especificamente para as mulheres, incluindo atendimentos voluntários ou com preços acessíveis, de forma online e presencial, em todas as regiões do Brasil.

O Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) conta com um projeto e serviço chamado “Apoiar”, que realiza o atendimento online para pessoas de todas as idades. Em 2020, foram atendidas 1.532 pessoas em todo o Brasil.

“Nesse grupo, temos muitos jovens e adolescentes que realizam psicoterapia online, com a participação de mais de 500 terapeutas voluntários. O que temos visto é que o isolamento foi pior do que a pandemia para eles. O afastamento dos amigos e da escola tornou os adolescentes muito desmotivados para a vida”, afirma Leila Tardivo, coordenadora do projeto e professora do Instituto de Psicologia da USP.

O que explica o impacto maior sobre as mulheres

A sobrecarga de trabalho, a mediação de conflitos familiares e o aumento da violência doméstica são fatores que fazem com que o fardo da pandemia pese mais para as mulheres em relação aos homens. Segundo Scavacini, isso pode explicar também a maior incidência de distúrbios como depressão e ansiedade entre elas.

“O acúmulo de atividades que a mulher teve durante a pandemia explica uma boa parte dos casos de distúrbios. Desde ter que dar conta dos filhos na aula online, o próprio trabalho online e das coisas de dentro de casa, tudo ao mesmo tempo. Esse foi um fator da exaustão feminina e da falta de apoio”, afirma.

A psicóloga afirma que o aumento dos distúrbios, tanto em mulheres quanto em jovens, também pode ser associado ao abuso de álcool e à consequente elevação dos casos de agressão à mulher registrados durante a pandemia.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou, diante do isolamento social, 1.350 casos de feminicídio em 2020 – um a cada seis horas e meia. O índice é 0,7% maior em comparação ao total de 2019.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o aumento da notificação de casos de ansiedade, depressão, medo, tédio e incerteza foi acompanhado da elevação no consumo de álcool. Uma pesquisa feita pela Opas em 33 países e dois territórios das Américas apontou que 42% dos entrevistados no Brasil relatou alto consumo de álcool durante a pandemia.

Os dados foram coletados entre maio e junho de 2020, por um questionário respondido online. Ao todo, mais de 23 mil pessoas com idade acima de 18 anos responderam às questões relacionadas à Covid-19.

O peso da pandemia para os jovens

A pesquisa divulgada na Lancet corrobora os resultados de diversas análises que apontam que a pandemia impacta de forma significativa a saúde mental de crianças e adolescentes.

Segundo um estudo do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), seis a cada 10 jovens relataram ter sentido ansiedade e feito uso exagerado de redes sociais durante a pandemia. Além disso, 51% afirmaram ter sentido exaustão ou cansaço e 40% tiveram insônia ou distúrbios de peso.

Uma outra pesquisa, da Universidade de Calgary, no Canadá, apontou que a depressão e a ansiedade entre os jovens dobraram em comparação aos níveis pré-pandêmicos. A análise revisou 29 estudos com um total de mais de 80 mil participantes em todo o mundo, com idades entre 4 e 17 anos e idade média de 13 anos.

De acordo com os especialistas, o aumento da incidência dos distúrbios em jovens e crianças está associado principalmente ao isolamento social, adotado de forma preventiva à transmissão da Covid-19, a perda de objetivos e metas, devido às incertezas impostas pela pandemia, o afastamento escolar, com o fechamento das instituições, e dificuldades financeiras vivenciadas pelas famílias neste período.

“O jovem ainda está maturando seu sistema emocional. De forma diferente do adulto e do idoso que já têm mais capacidade emocional para lidar com as coisas. Além de estar em uma época em que esse contato social é fundamental para o desenvolvimento, e ser privado disso, o jovem também tem menos ferramentas para lidar com os fatores de estresse”, afirma Karen.

Para o psiquiatra e psicanalista Edson Guimarães Saggese, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o nível do impacto para a saúde mental de crianças e adolescentes com o fechamento das escolas ainda permanece incerto.

“Houve uma perda do contato com os colegas. A escola não é um lugar onde só se desenvolvem atividades didáticas e de aprendizagem, é um lugar de contatos afetivos. Para jovens e adolescentes esses contatos são especialmente importantes por que é uma idade em que as pessoas precisam ampliar o seu mundo, é o momento em que jovens e adolescentes constroem um novo mundo extra familiar”, afirmou.

O papel da escola

A professora da USP, Leila Tardivo, afirma que o retorno às atividades escolares também tem sido um momento difícil para alunos, educadores e gestores do ensino. “Os alunos perderam aula, perderam conteúdo e não têm interesse. Perder perspectivas e projetos de vida é algo muito preocupante. Esse efeito aconteceu de forma intensa entre os jovens”, disse.

Para os especialistas, as escolas são ambientes favoráveis para a abertura ao diálogo sobre as experiências vividas ao longo da pandemia e para a elaboração de sentimentos como o luto, a perda e as frustrações.

“É importante fazer grupos de conversa e deixar os alunos falarem. Vamos ouvi-los sobre o que aconteceu e como eles estão se sentindo diante de tudo isso. O sentido da vida cada um tem que ter o seu, mas é possível ajudar dando amparo, apoio, escuta e acolhida para que eles redescubram esse sentido”, afirma Leila.

Como é possível minimizar os impactos da pandemia

Diante de diagnósticos de distúrbios da mente, como a depressão e a ansiedade, a busca por atendimento especializado é fundamental para prevenir o agravamento dos transtornos. Além disso, contar com uma rede de apoio, como familiares e amigos, também contribui para minimizar os impactos nocivos da pandemia de Covid-19 para a saúde mental.

“A escuta é uma coisa muito importante, especialmente para mulheres, crianças e adolescentes. Ter um canal de comunicação, ou seja, a possibilidade de falar e alguém escutar. E escutar significa uma coisa ampla: escutar sem preconceito, sem receitas prontas, é algo que valoriza muito”, disse Saggese.

Técnicas de autocuidado também podem trazer benefícios para a saúde da mente. Segundo a psicóloga Karen Scavacini, o primeiro passo é buscar reconhecer quais são os gatilhos emocionais para cada indivíduo. Gatilhos, neste sentido, são as situações que disparam reações emocionais negativas, como a ansiedade, por exemplo.

“É importante identificar o que deixa a pessoa mais nervosa, ansiosa ou triste, e perceber o que muda tanto no corpo, como na emoção ou no comportamento quando ela não está bem. Ela começa a dormir menos, está mais nervosa, ansiosa, com menos paciência? Para cada pessoa isso pode ser diferente”, explica.

A especialista explica que, a partir disso, o próximo passo é buscar compreender o que é feito que pode melhorar ou piorar cada situação. “Por exemplo, melhorar a situação: fazer um exercício físico, tentar ter uma boa noite de sono, tomar um banho relaxante e fazer coisas que lhe deem prazer. Coisas que podem piorar: descontar no uso de álcool, entrar numa rede social e ficar comparando a vida com a de outras pessoas, arrumar briga ou ser mais agressivo, coisas que não são saudáveis”, acrescenta.

Por fim, a psicóloga recomenda o estabelecimento de uma rede de apoio, ou seja, pessoas com as quais se pode contar nas mais diversas situações, seja para ouvir um desabafo, para ajudar com a rotina da casa ou o cuidado com os filhos.