segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Nação Rivotril

Esta matéria foi publicada há um tempinho pela revista Superinteressante, mais precisamente há quatro anos. Mas como ela ainda é atual, resolvi compartilhar alguns trechos com vocês.
Lembrando que qualquer diagnóstico deve ser feito por um médico, assim como a prescrição de remédios. E 
Rivotril é com psiquiatra, heim gente?! 



O Brasil é o maior consumidor de Rivotril do mundo. Saiba como um calmante tarja preta tem sido usado para aplacar os sentimentos ruins de jovens, trabalhadores e donas de casa

Por Bruno Versolato   


Todo mundo tem um refúgio a que costuma recorrer para aliviar o peso dos problemas. Pode ser um lugar tranquilo, talvez a praia. O pensamento em uma pessoa querida. Uma extravagância, como compras ou aquele prato proibido pelo médico. 
Ou pode ser o armarinho de remédios de casa.

Na farmácia não se encontra produto descrito como "paz em drágeas" ou "xarope de paz". Mas muita gente acha que é isso o que deveria dizer o rótulo do Rivotril, um ansiolítico (ou, popularmente, um calmante).

Rivotril é prescrito por psiquiatras a pacientes em crise de ansiedade - nos casos em que o sofrimento tenha causa bem definida. Mas tem sido usado pelos brasileiros como elixir contra as pressões banais do dia a dia: insônia, prazos, conflitos em relacionamentos. Um arqui-inimigo dos dilemas do mundo moderno. 
Tanto que o Brasil é o maior consumidor do mundo em volume de clonazepam, o princípio ativo do remédio. (...)

E olhe que o Rivotril é um remédio tarja preta. Só pode ser comprado na farmácia com a receita do médico em mãos. "A maior parte das vendas desse medicamento acontece via prescrição. Mas muitos conseguem o remédio com receita em nome de outros pacientes ou até pela internet", afirma Elisardo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Unifesp.

Em alguns casos, até há a prescrição - mas de um médico não especialista, segundo Alexandre Saadeh, professor do Instituto de Psiquiatria da USP. "Ginecologistas costumam prescrever Rivotril para pacientes que sofrem fortes crises de TPM", diz. Até porque poucos brasileiros vão ao psiquiatra, de acordo com a Roche, laboratório responsável pelo Rivotril. "Grande parte dos brasileiros tem dificuldade de acesso a psiquiatras, e isso está relacionado à prescrição do Rivotril por médicos não especialistas", afirma Maurício Lima, diretor-médico da Roche.


Foi assim, por via não ortodoxa, que a popularidade do Rivotril cresceu. Não é difícil ouvir donas de casa recomendando o remédio a uma amiga que tem tido problemas para dormir. "Quem nunca ouviu que uma tia ou uma vizinha toma Rivotril há 20 anos e só dorme com isso?", pergunta o professor de psiquiatria do curso de medicina da PUC de São Paulo, Carlos Hubner. Ou achar relatos do tipo "Rivotril é meu melhor amigo". (...)

O que é que o Rivotril tem?


Quando somos pressionados, algumas áreas do cérebro passam a trabalhar mais. Vem a ansiedade. O Rivotril age estimulando justamente os mecanismos que equilibram esse estado de tensão - inibindo o que estava funcionando demais. A pessoa passa a responder menos aos estímulos externos. Fica tranquila. Ainda que o bicho esteja pegando no trabalho, o casamento indo de mal a pior e as contas se acumulando na porta.

É essa sensação de paz que atrai tanta gente. Afinal, a ansiedade traz muito incômodo: suor, calafrios, insônia, taquicardia... "Muitas vezes o sofrimento se torna insuportável. O remédio é valioso quando o paciente piora", diz Silva Costa. (...) 


Justamente por trazer essa calma toda, o Rivotril não é recomendado a qualquer um. Seu consumo por profissionais que têm de se manter ágeis e em estado de alerta - como pilotos de avião e operadores de máquinas, por exemplo - é desaconselhado por médicos. "O Rivotril dá a falsa impressão de que a pessoa produz mais, mas a verdade é que o remédio só deixa mais calmo", diz José Carlos Galduroz, psiquiatra da Unifesp.

Não é só com o Rivotril que isso acontece. Os calmantes da família dele - os chamados benzodiazepínicos - têm o mesmo papel. São remédios como Lexotan, Diazepam e Lorax. Em parte, o Rivotril ficou famoso ao pegar carona na onda dos "benzo". Eles surgiram na década de 1950, e logo viraram os substitutos para os barbitúricos, como o Gardenal. Os barbitúricos têm indicação semelhante à dos benzo. Mas são mais perigosos: a linha entre a dosagem indicada para o tratamento e aquela considerada tóxica é muito tênue. (...) Quando surgiram os benzodiazepínicos, o mundo achou um combate mais seguro à ansiedade. "Uma overdose de remédios como o Rivotril é praticamente impossível", diz Saadeh, da USP. 

É verdade, o Rivotril tem berço, vem de uma família benquista pelos médicos. Isso já garante uma popularidade. Mas ele tem uma vantagem extra em relação aos parentes. Seu tempo de ação é de, em média, 18 horas no organismo, entre o início do relaxamento, o pico do efeito e a saída do corpo. É o que os médicos chamam de meia-vida. "A meia-vida do Rivotril é uma das mais confortáveis para o paciente, porque fica no meio-termo em relação aos outros remédios para a ansiedade e facilita a adaptação", diz Saadeh.

Na prática, esse meio-termo significa que o efeito do Rivotril não termina nem cedo demais - o que poderia fazer o paciente acordar de uma noite de sono já ansioso - nem tarde demais - o que não prolonga a sedação por um período maior que o desejado. (...) 


Tudo isso faz o pessoal se esquecer da tarja preta do remédio. Mas ela está lá por um motivo, é claro. E esse motivo é o risco de dependência. 

O risco é o mesmo visto em outros benzodiazepínicos. São dois, aliás. O de dependência química e o de dependência psicológica.
Na química, o processo é parecido com o gerado por drogas como álcool e cocaína. O uso prolongado torna o cérebro dependente daquela substância para funcionar corretamente.

A outra dependência é a psicológica.
A pessoa até para de tomar o remédio, mas mantém uma caixa sempre no bolso como precaução. "Cerca de 80% das pessoas que usam benzodiazepínicos ficam dependentes em 2 ou 3 meses de uso", diz Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas, de São Paulo. "E a maioria tem síndrome de abstinência se o remédio for tirado de uma hora para outra." (...)


Portanto, como digo e repito: remédio, ainda mais controlado, só com acompanhamento médico. Responsabilidade e bom senso nunca são demais. ;)

Saúde, paz e coragem! :)


Para ler a matéria completa, clique aquiImagem retirada da internet. 

7 comentários:

  1. Karen, seja la como for se nao existisse esses remedios minha vida seria um inferno.

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  2. Karen parabéns pelo blog sempre altivo. O ser humano infelizmente tem facilidade em adquirir vícios, desde os mais simples como tomar refrigerantes em excesso, passando por álcool, fumo, maconha, chegando até o mortal crack entre outros. E isso serve pra que? pra gerar uma satisfação que não se consegue vivendo normalmente, é claro muitas vezes desencadeado por muitas situações negativas na vida. Tenho um amigo empresario, bem sucedido, de fala calma, tranquila, que disse que toma o referido ansiolítico a mais de 15 anos, ele diz que isso o torna operante e disposto, porém com visitas regulares em um especialista e com receita nas mãos usando sempre na dose recomendada. A conclusão que tenho é que cada caso é um caso, usar esses medicamentos como a reportagem diz só para relaxar por situações banais é um erro grave. Karen gosto do seu altruísmo, agora vou lhe dizer uma frase "roubada" do dicionário Michaelis "Sem altruísmo não há felicidade, porque o egoismo que gera angustia"

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    1. Com certeza, cada caso é um caso. O importante é não banalizar e tratar o assunto com seriedade. Muito obrigada pelas suas palavras! Saúde e coragem para todos nós. :)

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  3. Eu tomei Rivotril por 7 anos de forma indevida, pois sempre fui ansiosa, resolvi parar de uma vez só, pois não sabia do efeito rebote, então ele veio e veio forte, foi 1 mês de tormente, sem dormir direito e sem entender nada, achei que estava ficando doida. E só então eu procurei um psiquiatra e resolvi contar tudo. Fui diagnostica com agorafobia com crises de pânico e Transtorno de ansiedade, dependência crônica do Rivotril e claro uma crises de abstinência severa. Agora se você leu tudo isso e acha que eu sou contra o uso do Rivotril está enganado, eu somente sou contra o uso indiscriminado, sem orientação médica e o abuso do mesmo, como no meu caso. Posso dizer que em primeiro lugar Deus trouxe minha vida de volta, segundo meu psiquiatra (Porque eu acredito que os médicos são seres enviados por Deus para nos tratar e se existe medicação para uma vida melhor e de qualidade, elas também vieram de Deus), a minha força de vontade e porque não ao Rivotril, pois é, agradeci a ele também. Parece irônico e é, mas o meu tratamento se dá com um antidepressivo e o Rivotril e posso dizer que estou 90%, estou no início do desmame do Rivotril, pois como meu médico explicou, os ansiolíticos são remédios para serem usados a curto prazo, existem casos que devem ser usados por mais tempo. Então estou na luta, acredito que passamos por aquilo que temos que passar, mas também temos que buscar qualidade de vida e tratamento médico correto. Eu confesso que também relutei para aceitar a minha doença ou transtorno, ainda estou em transição, mas, agora com a cabeça com mais coragem, pois estou entendendo esse transtorno, com responsabilidade com a medicação. Então posso dizer que minha relação com o Rivotril é de amor e ódio..rsrs, afinal, temos que ter bom humor. Um grande Beijo em todos, coragem, pois nós não estamos sozinhos!

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    1. Oi, Daniela, tudo bem? Adorei seu depoimento, posso publicá-lo no blog? De que cidade você é? É isso mesmo, toda medicação deve ser usada sob orientação médica, se auto medicar é muito perigoso. Ainda bem que você buscou ajuda, agora vai ficar tudo bem! :)
      Um beijo!

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  4. Entre 2010 a 2012 este rivotril, fazia bons efeitos: dava sono, tranquilidade e acordava com a mente leve, era bom; mas depois de 2012, o calmante, passou a não fazer nenhum desses bons efeitos e sempre acordo com a mente pesada, nem os psiquiatras e clínicos gerais q passei, sabem o que é este fenomeno q aconteu comigo, agora sei q pode ser este efeito rebote, mas não sei o que fazer.

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