domingo, 3 de novembro de 2013

Por uma infância saudável e um adulto são

Um dos meus objetivos com o Sem Transtorno é conscientizar pais e educadores sobre a importância de proporcionar à criança uma infância saudável para que, no futuro, essa criança se torne um adulto psicologicamente seguro. 

A minha experiência me serve de motivação para clamar por isso e tentar evitar que outras tantas crianças sofram as consequências de uma negligência - mesmo que essa negligência seja involuntária. Por isso, gostaria de contar um pouco da minha história para vocês.
Dessa vez não serei tão "branda" como de costume. O assunto é hard e não tenho como florear muito, espero que compreendam!


Sou filha única de pais tardios. Quando nasci, minha mãe tinha 42 anos e meu pai 44. Ela japonesa, ele filho de espanhóis; machista e moralista. Nos dias de hoje isso pode não fazer muita diferença, várias amigas minhas decidiram ser mães aos 40 por diversos motivos. Mas na minha infância, lembro que fazia diferença sim. Além da diferença de idade entre nós, havia a diferença cultural também. Minha mãe veio criança para o Brasil, mas agia como se ainda vivesse no Japão. Quando criança, eu não podia pintar as unhas nem de esmalte clarinho, usar batom mesmo que fosse clarinho também, falar palavras feias ("droga", por exemplo, era um palavrão pra ela), só fui furar as orelhas pré-adolescente e porque insisti muito. E isso, pra uma criança, não é fácil de administrar. Criança quer ser aceita, fazer parte da turma, ser igual ou melhor do que os coleguinhas. O problema é que qualquer coisa boba pode se tornar motivo para ser descriminado e virar chacota. Certas crianças saberão lidar bem com isso, outras sofrerão mais do que o necessário. Eu até que me virava bem.

Sempre fui muito mimada. Tinha os melhores brinquedos, as melhores roupas, bastava dizer "eu quero" que conseguia qualquer coisa. Meus pais trabalhavam fora de segunda a sábado, o dia todo, ambos no comércio. 
Meu pai era sócio em duas joalherias em Copacabana e minha mãe era vendedora em uma joalheria muito famosa, em Ipanema. Por ser uma das únicas japonesas e tão competente no que fazia, era muito requisitada (os japoneses eram ótimos compradores). Ela diversas vezes trabalhava aos domingos e feriados também. E para compensar a ausência, presentes e mais presentes fora de hora para mim.
Nada de apanhar, nada de ficar de castigo, nada de limites. Se tirava notas boas, ótimo. Se não tirava, também. Nada mudava.


Minha rotina era acompanhada de perto pelas empregadas da nossa casa e por uma tia, irmã do meu pai, que morava com a gente, a tia Yvonne. Ela era como uma avó pra mim. Quando morreu, eu tinha 19 anos e sofri demais.
Ela e as empregadas é quem me levavam pra escola, me buscavam, me levavam pro balé, pro jazz, pra natação, pra aula de piano, de inglês, japonês... e também ao cinema e à Casa de Rui Barbosa, onde cresci brincando. 
 

Talvez por ter mais tempo do que minha mãe, meu pai me acompanhava mais. Ele costumava me levar para nadar no clube - o Fluminense - e até hoje adora narrar minhas travessuras na piscina. Ele gostava também de me ver jogando handebol nas olimpíadas escolares, principalmente quando elas aconteciam dentro do Forte São João, na Urca. Conta cheio de orgulho que os outros pais diziam: "Essa menina é danada"! 
E na minha primeira audição de piano ele foi e, pra ele, eu fui a mais aplaudida. Já minha mãe não foi, ficou com receio. Passei a vida achando que ela tinha ficado presa no trabalho, mas há pouco tempo ela me confessou que não foi porque achou que eu não iria tocar bem... Santa cobrança, Batman...

Abuso aos 12 anos

Fiquei menstruada pela primeira vez aos dez anos. Com isso, meu corpo se desenvolveu rapidamente, precisei usar sutiã e me tornei a garota mais alta da turma. Quando eu estava na 6ª série - hoje o 7º ano do ensino médio -, comecei a ser assediada por um professor. Ele era jovem, devia ter 25 ou 26 anos, não era bonito, mas praticava esportes radicais, andava com roupas de grife e, acho que por isso, chamava a atenção de algumas meninas.
  
Um dia, durante o recreio, um grupo de amigas presenciou uma dessas investidas. Ele mandava recados por elas, dizia que era apaixonado por mim, que queria namorar comigo. Isso me deixou muito envergonhada.
Mas como a maioria das crianças que sofrem algum tipo de abuso, eu me sentia culpada também; achava que de alguma forma eu tinha provocado aquela situação. Pedi então para a minha mãe me tirar da escola - a escola onde estudava desde o pré-escolar, onde tinha todos os meus amigos, onde era representante de turma, capitã do time de handebol...
Ela estranhou o pedido, mas não a ponto de impedir que eu tomasse a decisão. Acho que ali faltou diálogo, sensibilidade, entrosamento entre meus pais e eu. Se eles tivessem forçado a barra, talvez tivessem descoberto a tempo o que estava acontecendo comigo.

Mudei de escola, mas os problemas não pararam. O tal professor descobriu meu novo colégio e passou a me esperar do outro lado da calçada na hora da saída. Me esperava também na porta da academia onde eu malhava e às vezes me seguia até em casa. Eu sempre andava acompanhada de uma empregada, mas isso não o intimidava. Um dia me colocou dentro do carro dele e me levou para um "passeio". Nesse passeio, abusou de mim. 

Eu ainda era muito ingênua, continuava sendo a menina que não falava palavrão e nem usava maquiagem. Mas a partir daquele dia, sei que alguma coisa dentro de mim mudou. Mudou pra pior.

Corri para a casa de uma amiga e contei o que tinha acontecido. Ela me explicou calmamente tudo o que sabia, já que tinha um irmão. "Meninos fazem coisas estranhas mesmo, meio nojentas, mas se fizeram com você é porque te acham bonita". Quanta ingenuidade...

Meu pesadelo só acabou quando criei coragem de contar pra minha mãe. Naquele dia, ele ligou pra minha casa e ficou dizendo coisas obscenas pra mim, coisas que na época eu não entendi, mas sabia que eram "inadequadas". Chamei minha mãe e pedi para ela escutar a conversa na extensão. Uma frase foi suficiente para deixá-la transtornada. Lembro que ela gritava: "Se você procurar a minha filha de novo, eu te mato!" Felizmente, não precisou matar. Ele me deixou em paz.

Em paz é modo de dizer porque carreguei esse trauma comigo durante anos e anos. E a isso, mais tarde, somatizou-se o alcoolismo do meu pai, a aposentadoria da minha mãe e a consequente queda no nosso padrão de vida, a minha entrada na faculdade, a preocupação com o meu futuro... e de uma menina tranquila e estudiosa, passei a me comportar mal, a beber, fumar, repeti de ano, fiquei completamente desconcentrada, sem foco e agressiva. Me sentia perdida, desprotegida, um barco à deriva. E é assim que se sente um jovem sem um direcionamento, sem limitações, sem a segurança que só uma família pode proporcionar.

Aos 21, a primeira crise de pânico e o início da minha luta por sanidade.

Somente há dois anos mais ou menos é que levei esse assunto para a minha terapia e comecei a enfrentá-lo. Não omiti propositalmente, era como se eu tivesse colocado essa "sujeira" embaixo do tapete e esquecido por lá.
Quando esse assunto veio à tona, passei mal, chorei muito, mas minha psicóloga me convenceu de que era necessário falarmos sobre isso. Então seguimos em frente. Hoje, relembrando tudo, minhas mãos suam frio e meu coração bate disparado. É claro que não me faz bem, mas achei que era o momento de falar abertamente sobre isso com vocês e alertar sobre a necessidade de se manter um bom relacionamento com os filhos, com os netos, com os alunos. De prestar atenção em mudanças bruscas de comportamento, em uma tristeza aparentemente sem motivo. Queria acrescentar ainda que não me faltou amor dos meus pais, eles sempre foram carinhosos e dedicados dentro das possibilidades deles. Me faltou atenção, esclarecimento por parte deles. E h
oje temos muita informação ao nosso alcance, profissionais bem mais preparados para ajudar nesse tipo de situação, remédios e terapias eficazes. Temos muito mais chance de evitar que isso aconteça.

Gostaria de dividir com vocês também um trecho do livro que estou lendo e que tem tudo a ver com o que acabei de relatar. Um grande abraço a todos, coragem, força, amor e paz!

Vítimas de maus-tratos na infância

"Alguém que tenha sido o predileto incontestável de sua mãe carrega pela vida afora um sentimento de vitória e uma certeza de ser bem-sucedido, que frequentemente levam de fato ao sucesso." A frase é do pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939). Ela mostra como o cuidado e o amor na primeira infância são fundamentais para o desenvolvimento saudável e a trajetória de uma pessoa ao longo da vida. Pessoas que foram abandonadas, negligenciadas, sofreram violência física e psicológica ou abuso sexual quando crianças têm mais chances de desenvolver transtornos psíquicos na vida adulta. Os traumas na infância podem predispor a uma série de problemas, como depressão, ansiedade, uso excessivo de álcool e outras drogas, distúrbios alimentares e transtornos de personalidade. Estudos estatísticos permitem estimar que entre 25% e 35% das crianças vítimas de maus-tratos terão depressão quando chegarem aos 20 anos de idade.

(...) Em seu livro O inimigo no meu quarto, o psiquiatra e psicanalista Yoram Yovell explica em detalhes como os mecanismos da memória atuam nos eventos traumáticos. "Em momentos de tensão elevada, é possível que o hipocampo, que registra a memória explícita do que está ocorrendo, pare de funcionar. Ao mesmo tempo, a amígdala funciona muito bem, exercendo sua função de memorizar de modo implícito e inconsciente as reações de medo e os estímulos que as provocam". O resultado é o seguinte: "o trauma , em si mesmo, não é lembrado, apesar de ser possível, em certos casos, recordá-lo. Mas o medo e a angústia do trauma são muito bem memorizados, assim como os estímulos ligados a eles". 

Há ainda outros mecanismos envolvidos na relação entre o trauma da infância e os transtornos mentais que surgem na vida adulta. Yovell explica que bebês e crianças que passam por situações de tensão emocional com muita frequência tendem a ter os circuitos cerebrais ligados ao estresse alterados, o que as coloca num estado de "emergência permanente" e as torna mais vulneráveis a episódios de depressão e pânico na vida adulta. 

(...) Os prejuízos causados pelos maus-tratos na infância não ocorrem apenas nos casos graves de abandono, violência física ou abuso sexual. Situações mais sutis também podem causar danos no futuro".

(trecho do livro Não é coisa da sua cabeça, de Naiara Magalhães e José Alberto de Camargo - editora Gutenberg, 2012)

Imagens: internet


12 comentários:

  1. Nossa!!!!Já passei por algo parecido,isso tb somatiza os problemas!!!

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  2. Oi, Karen

    Nossa chorei ao ler, mas te conhecendo um pouco como conheço, só posso te dizer o seguinte, PARABÉNS, pq mesmo depois de tudo isso, com esses conflitos internos que vc guardou por anos, vc sempre demonstrou ser uma pessoa do bem e sempre com um astral bom ( mesmo qdo triste ), e mesmo de forma "errada", seus pais conseguiram formar uma filha, de caráter e muito gente boa, te admiro muito e mesmo de longe, se precisar , to aqui , tá bjs

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  3. Parabéns pela coragem de enfrentar seus medos e relembrar tudo isso!saiba que através das suas experiências vc tem ajudado muitas pessoas !abraços

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  4. Muito obrigada pelos comentários carinhosos e encorajadores. Espero poder ajudar com a minha experiência e com a minha força, é só o que desejo. Beijos!

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  5. Karen, nem sei o que dizer. Nesta época, eu não estava mais trabalhando na escola, mas mesmo assim, sinto-me culpada por ter ficado ausente, por não ter sabido de nada, por não ter tomado nenhuma atitude. Sinceramente, foi um baque e tanto a sua história, pela escola onde eu nunca iria imaginar acontecer algo semelhante. Quanto a ajuda que você está dando aos pais, professores,avós etc, eu só posso dizer: MUITO OBRIGADA PELA GENEROSIDADE QUE VOCÊ TEM DEMONSTRADO! Eu,como professora e mãe lhe agradeço de coração.

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  6. Oi Karen, tudo bem? Achei seu blog por um acaso pesquisando sobre TAG, no google, pois também sofro desse transtorno...
    Adorei o que li, parabéns pela coragem e boa vontade de ajudar o próximo.
    Abraço :)

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  7. Querida, D. Grauben, não se sinta culpada. Sinta-se privilegiada por ter ex-alunos, como eu, que lhe querem tão bem! :) Um beijo enorme e muito obrigada pelo seu carinho de sempre!!! Não trocaria os anos felizes que vivi na nossa escola por nada!!!!

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  8. Olá Karen! Que maravilha encontrar esse blog! Tenho 25 anos e sofro com a síndrome do pânico desde sempre, eu acho, mas comecei a me tratar e entender realmente que isso é uma doença em 2010! Não sabia que existem tantas pessoas que passam por situações parecidas que a minha! Que alívio saber que não estou sozinha! rs sempre leio seus posts mas hoje resolvi deixar esse recado, mto obrigada por tudo, vc é um exemplo pra mim, Deus abençoe você e a todos nós que lutamos contra esse mal! Bjos

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  9. Oi, Gisele! Fico muito feliz e emocionada quando leio comentários como o seu. De verdade! Muito obrigada pelo carinho, espero poder ajudar com a minha experiência e evitar que outras pessoas sofram por tanto tempo como eu sofri. Beijos e volte sempre, por favor! ;)

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  10. Karen querida, te admiro por criar um blog para se ajudar e ajudar aos outros. Emocionante seu depoimento. Parabéns pela sua coragem de enfrentar tudo isso ♥

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  11. Carol, fico emocionada e orgulhosa por contar com o seu apoio. Uma menina (uma artista!) que conheço desde pequenina e que admiro tanto. Um grande beijo e todo meu carinho pra vc. Obrigada pela parceria. <3

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  12. Olá, encontrei seu blog, buscando sobre ansiedade para ajudar a um parente... e depois me deparei com esse texto... Parabéns pela coragem, por se abrir e dividir sua história... não tenha dúvidas q servirá de ensinamento pra muitos pais.... Abraço!!!

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